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Procurar conhecer as consequências sociais da introdução de
computadores na sociedade, e em particular nas escolas, não é a melhor
orientação para a investigação sociológica sobre as tecnologias de
informação e comunicação.
Como se procura mostrar na terceira parte do presente trabalho,
essa é a pergunta que fazem os que se situam do lado da tecnologia na
divisão social do trabalho. Essa é a forma do apelo que nos lançam, aos
que estudamos o lado humano e social das realidades, os tecnólogos que
se confrontam com o (d)efeito tecnocrático (ver primeiro capítulo da
terceira parte). É a maneira que encontraram de nos pedir ajuda, sem
baixarem a guarda da sua autoridade exclusiva no campo cognitivo e
profissional que delimitam como tecnologia.
Do lado de cá do conhecimento devemos reformular o pedido,
traduzi-lo em formas discursivas mais adequadas e eficazes. Por exemplo:
Que capacidade motivacional potenciou e realizou o trabalho de
introdução de computadores nas escolas portuguesas, o projecto Minerva,
junto dos professores e alunos? Como contribuiu tal processo para a
melhoria do sistema educativo? Pode falar-se em mudança na educação com
a introdução de computadores? Estas são perguntas utilizadas por nós, na
primeira parte do trabalho, mas recolhidas das preocupações dos
professores protagonistas do Minerva.
A sociologia, porém, permite que se faça algo mais que isso.
Através de uma construção teórica mais elaborada, o movimento
informático que apresentamos na segunda parte, podemos contribuir para
uma melhor compreensão e explicação de diversos fenómenos, com
incidências diversificadas a nível individual, grupal e do todo social,
tanto nacional como globalmente, e com consequências organizativas,
estratégicas e institucionais. Esse esforço de conceptualização
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permitiu-nos discutir 1 a correcção das práticas sociais identificadas
no quadro do Minerva, em função dos objectivos e dos desejos dos
protagonistas. Podémos também denunciar as armadilhas institucionais e
ideológicas em que a tecnocracia encurrala os seus seguidores, e a nós
todos por tabela.
Ao produzirmos um contributo interpretativo sociológico da
resposta negativa à pergunta se o Minerva serviu para mudar a escola -
que nos apareceu como óbvia durante a investigação -, procurámos mostrar
que:
• o labor sociológico não é expontâneo, não está já inscrito nas
práticas sociais, tecnológicas ou não, na é uma recolha de materiais
dispersos, da mesma forma que a inovação tecnológica não existe antes
de uma longa cadeia de trabalho nem as máquinas são apenas o
amontoado de materiais de que são constituídas;
• os resultados sociológicas, tanto a nível da inovação teórica como a
nível dos resultados de investigação possíveis de obter através das
análises sociais iluminadas pela teoria sociológica utilizada, tal
como as máquinas, se forem utilizados, podem gerar benefícios
económicos e sociais, caso os seus utilizadores - que raramente são
os seus inventores - sejam capazes de explorar, no melhor sentido, as
suas potencialidades;
• apesar das semelhanças entre os trabalhos sociológico e tecnológico,
apontadas nos dois itens anteriores, a sociologia, tradicionalmente e
por razões de eficácia, não se faz como a tecnologia. Por isso, para
ser possível responder positivamente aos apelos humanizantes dos
tecnólogos, para que os cientistas sociais e os práticos ocupantes de
lugares na divisão de trabalho encarregues de tratar assuntos sociais
- políticos, gestores, por exemplo - lhes desobstruam o caminho,
acabem com as resistências à mudança tecnológica, é preciso criar
condições de cooperação: respeito mútuo pelo trabalho e pelas
1 Mesmo que de forma incompleta (como chamamos a atenção na comclusão)
por falta de análise em muitas das dimensões do problema e, certamente
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tradições epistemológicas do campo oposto, tecnológico ou social e
humano; vontade e esforço de compreender o suficiente sobre o
trabalho do campo oposto, de forma a permitir a cooperação
intelectual entre uns e outros, em combate comum contra a ignorância,
a incultura e o obscurantismo, pela democratização da ciência.
Para a concretização deste trabalho várias tarefas preliminares,
digamos assim, foram necessárias cumprir. Em resumo seis, de desigual
importância relativa:
1. inquérito, realizado em quinze escolas da Grande Lisboa, dirigidos
aos alunos e professores entre os 7º e 12º anos inclusive, realizado
em duas datas distantes - 1988 e 1992 - com o objectivo de procurar
registar as mudanças ocorridas entre essas datas nas escolas
consideradas e que pudessem ser atribuídas à introdução de
computadores. Este trabalho incluiu análise de dados, nomeadamente
com recurso a análise multivariada, concretamente análise factorias
de correspondncias;
2. trinta entrevistas de cerca de uma hora com professores responsáveis
pela coordenação do Minerva nas escolas em 1992/1993;
3. análise de dados do relatório estatístico COMPED - computadores na
educação, publicado pelo GEP/Educação e de co-autoria de José DUARTE e
Mário MAIA, 1993;
4. análise de informação estatística oficial, o Inquérito aos Orçamentos
Familiares 1989/90, Lisboa, INE e os Indicadores de Conforto 1987 a
1992 do Instituto Nacional de Estatística, sobre a posse de
computadores domésticos em Portugal;
5. análise de conteúdo dos relatórios europeus New Information
Technology in Education de 1992, Luxemburgo, sob encomenda da
Comissão das Comunidades Europeias;
6. participação em reuniões nacionais e internacionais sobre as matérias
envolvidas.
também, por incapacidade de realizar um modelo analítico capaz de
considerar todos os aspectos pertinentes ao mesmo tempo.