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Ancorada num imaginário romântico, a ideia de que a decisão de casar seria progressivamente dominada por sentimentos alheios à estrutura socia foi sendo disseminada nas sociedades ocidentais, tornando-se a procura de traços de personalidade o pretexto de diversos estudos no âmbito das ciências sociais. Ao invés, trabalhos no domínio da sociologia vieram questionar esta crença num amor sem condicionalismos sociais. A importância decisiva da proximidade social na escolha do cônjuge, demonstrada pela prevalência do casamento homogâmico, é um resultado transversal às pesquisas realizadas em sociedades que sofreram transformações cujos contornos Portugal testemunhou nas últimas décadas, quer no plano da demografia familiar, quer no plano da estrutura sócio-profissional. A presente investigação sociológica sobre a escolha do cônjuge e distância social no casal confrontou-se com dois principais desafios. Um primeiro desafio consistia em avaliar até que ponto a escolha do cônjuge, em Portugal, constitui um momento decisivo na diferenciação social. Com base numa pesquisa extensiva a famílias portugesas com filhos foi possível observar diversos critários - posição sócio-profissional, escolaridade, origem social, etc. - intervenientes na escolha do cônjuge sentido da proximidade social e cultural. Um segundo desafio prendia-se com a interpelação à circunscrição do papel do casamento na diferenciação social ao momento da escolha do cônjuge. A partir da análise qualitativa, com base em vinte e sete entrevistas em profundidade a mulheres a viver em união conjugal, com filhos em idade escolar, licenciadas e que exercem profissões qualificadas, observámos diferentes tipos de trajectória conjugal, consoante a distância social entre cônjuges que, entretanto, se produziu no decurso da vida em casal, demonstrando-se que tal ditsância não é alheia à divisão familiar do trabalho, à dinâmica conjugal e, enfim, às estratégias femininas de conciliação família-trabalho.