PT
Neste estudo, analisa-se a validade da ideia dominante, segundo a qual, ao longo da
revolução liberal, o partido vencido terá gozado do apoio generalizado do povo
português.
Essa ideia, desenvolvida tanto no campo absolutista, como no liberal, acabou por se
afirmar, através dos escritos históricos de Oliveira Martins, que chega a falar da
“paixão miguelista do país inteiro”.
Dada a impossibilidade de fazer uma análise aprofundada a nível nacional, optou-se
por circunscrever o estudo à escala de uma província, a província de Trás-os-Montes,
precisamente aquela em relação à qual as teses unanimistas assumiram maior
verosimilhança, por ter sido palco das revoltas absolutistas de 1823 e 1826-1827,
lideradas pela família Silveira.
Do estudo efectuado, relativo ao período de 1820 a 1834, concluímos que a contrarevolução
absolutista, que a partir de 1826 passou a corporizar-se no miguelismo, não
obteve em Trás-os-Montes o apoio generalizado que a historiografia oitocentista
retratou.
De facto, o protagonismo contra-revolucionário dos Silveiras levou, logo na época, a
sobrevalorizar o seu papel, esquecendo-se a acção de um conjunto de outras famílias
transmontanas, que irão optar pelo liberalismo, com destaque para os Sepúlvedas, os
Pessanhas, os Mirandas e os Oliveira Pimentel.
Acresce que a região do Douro, uma zona reputada como apoiante incondicional dos
Silveiras e do miguelismo, se dividiu entre as duas facções políticas, com a sub-região
do Cima-Corgo a assumir um forte activismo liberal, traduzido na formação de
guerrilhas constitucionais, que ali se armaram contra os partidários do absolutismo. A
estreita relação com os negociantes do Porto e a sua oposição à Companhia ajudam a
entender esta opção política.
Como o evidenciam as listas de processados pelo crime de rebelião, que publicamos
em anexo por povoações, uma parte considerável da população transmontana apoiara
o liberalismo. A repressão miguelista atinge valores elevados, sobretudo na comarca
de Vila Real, onde as devassas pronunciaram 903 réus, a maior parte dos quais
residentes nas aldeias do Cima- Corgo.
Para analisar as atitudes políticas da população transmontana, estudámos a situação
económica, social e cultural da província à época, caracterizada por um certo
desenvolvimento, favorecido pelas obras executadas em finais do século XVIII, que
possibilitaram a navegabilidade do Douro até à fronteira, o que veio conferir um forte
impulso à agricultura comercial, patente na expansão da viticultura duriense no Douro
Superior.