PT
Esta dissertação é constituída por três artigos sobre gestão de risco de crédito e
engloba diferentes tipos de empresas que podem ser observadas na carteira de crédito de
um banco. Foi usada uma extensa base de dados do Banco de Portugal, com cerca de
43.000 demonstrações financeiras de mais de 16.000 empresas, no periodo compreendido
entre 1997 e 2003. Cerca de 2.500 observações pertencem a empresas que entraram em
incumprimento de crédito, conforme a definição de Basileia II, representando 6% do total
de observações da base de dados em estudo. No desenvolvimento das estimações
empíricas, foram aplicadas diferentes metodologias e sub-grupos de observações da base de
dados principal, no sentido de garantir a qualidade dos dados usados, bem como a robustez
dos resultados obtidos.
O primeiro artigo, no capítulo 1, estuda a influência da avaliação do auditor externo
sobre a capacidade de continuidade de uma empresa através da análise dos eventos de
incumprimento de crédito após a produção do relatório do auditor. Os requisitos
profissionais da função de auditoria implicam que o auditor externo, na elaboração da sua
opinião, tenha em consideração e informe explicitamente sempre que existam dúvidas
significativas sobre a capacidade de continuidade de uma empresa. A primeira intenção do
estudo foi determinar se a avaliação sobre a capacidade de continuidade de uma empresa,
por parte do auditor externo, conteria informação substancial, examinando para isso as
empresas que entraram em incumprimento de crédito após a emissão de dúvidas por parte
do auditor. Nesse sentido, foram usados 12.199 relatórios de auditoria relativos a cerca de
2.000 empresas obrigadas por lei a ter as respectivas contas auditadas anualmente. A
estimação empirica de um modelo logit, controlando informação contabilística de cash
flows bem como variáveis não contabilísticas, mostra que nas empresas que receberam, na
opinião do auditor externo, dúvidas sobre a capacidade de continuidade, a probabilidade de
incumprimento de crédito é 2,792 vezes superior em comparação com as empresas sem
esse tipo de opinião.
Os testes de Likelihood ratio para a omissão de variáveis confirmam o valor
incremental preditivo da opinião do auditor externo sobre a capacidade de continuidade das
empresas, quando comparado com variáveis contabilísticas e não contabilísticas, na
estimação de base e nas estimações através de bases de dados de comparação (out-ofsample).
No grupo de empresas que não entraram em incumprimento de crédito, a taxa
média de incumprimento estimada é de 6.05%, enquanto no grupo de empresas que
entraram em incumprimento a taxa média de incumprimento estimada é de 17.78%. A taxa
de incumprimento estimada de crédito para o grupo de empresas que não entraram em
incumprimento e que receberam uma opinião de incerteza sobre a capacidade de
continuidade, por parte do auditor externo, é de 9.92%, enquanto para as restantes empresas
a taxa média é de 5.96%. No grupo de empresas que entraram em incumprimento de
crédito, e nesse grupo, as empresas que receberam uma opinião de incerteza por parte do
auditor externo, a taxa média estimada é de 35.49%, enquanto para as restantes empresas
do mesmo grupo, a taxa média estimada é de 16.96%. A confirmação da robustez das
conclusões através da análise de diferentes dimensões de empresas, antiguidade das
empresas, sectores e regiões geográficas indicam que as empresas que receberam uma
opinião de incerteza de capacidade de continuidade por parte do auditor externo, em média,
entram mais em incumprimento de crédito do que as empresas que não têm qualquer
opinião de incerteza por parte do auditor externo.
O segundo artigo, no capítulo 2, usa a totalidade dos dados e analisa os eventos de
incumprimento de crédito para sociedades anónimas não cotadas e para sociedades por
quotas, no sentido de perceber as características de incumprimento de crédito para cada um
dos grupos de empresas. São estudadas seis hipóteses teóricas que relacionam a influência
de rácios contabilísticos e as respectivas propriedades distributivas relacionadas com o
incumprimento de crédito. Adicionalmente, duas hipóteses são testadas relacionando a
influência do enquadramento e responsabilidade legal e o incumprimento de crédito, bem
como o incremento da capacidade preditiva do enquadramento legal relativamente aos
rácios contabilísticos na estimação de incumprimento de crédito. Os seguintes rácios: cash
flow sobre a divida total; cash flows operacionais sobre os custos financeiros da dívida;
capitais próprios sobre o total de activos; e liquidez; têm uma relação negativa com o
incumprimento de crédito. A dimensão da empresas e a respectiva idade também estão
relacionados negativamente com o incumprimento de crédito. As sociedades anónimas
estão relacionadas positivamente com o incumprimento de crédito comparativamente às
sociedades por quotas. A probabilidade de incumprimento estimada para sociedades por
quotas é 0,83 vezes a probabilidade de incumprimento das sociedades anónimas. Os testes
de Likelihood ratio para a omissão de variáveis também confirmam o valor incremental
preditivo do enquadramento legal, quando comparado com informação contabilística, na
estimação de base e estimações através de bases de dados de comparação (out-of-sample).
No grupo de empresas que não entraram em incumprimento de crédito, para sociedades
anónimas, a taxa média de incumprimento estimada é 0.53% superior à taxa de
incumprimento estimada para sociedades por quotas. A mesma diferença é 2,07% superior
no grupo de empresas que entraram em incumprimento de crédito. A confirmação da
robustez das conclusões através da análise de diferentes dimensões de empresas indicam
que a vantagem das sociedades por quotas diminui com a dimensão das empresas.
O terceiro artigo, no capítulo 3, apresenta um modelo baseado em rácios
contabilísticos e não contabilísticos para determinar o incumprimento de crédito de
empresas não cotadas e um método de estimação de probabilidades de incumprimento de
crédito o qual pode ser usado pelo banco central em Portugal para calcular os requisitos
minimos de capital regulamentar dos bancos, bem como a sua utilização como benchmarks
na validação de modelos de rating internos da banca comercial. O Comité de Supervisão
Bancária de Basileia refere a necessidade de os bancos centrais e a banca comercial
modelizarem e estimarem probabilidades de incumprimento de crédito tendo em
consideração as respectivas especificidades dos portfólios e países em questão.
Relativamente a empresas não cotadas existem poucos estudos relacionados com
incumprimentos de crédito. Nesse sentido, é usada uma base de dados do Banco de
Portugal com 31.025 demonstrações financeiras de empresas não cotadas. Os dados usados
incluem 30 rácios contabilísticos e informação não contabilística sobre a dimensão e idade
das empresas, sector, e região geográfica. Em relação aos rácios contabilísticos: os custos
financeiros sobre os resultados brutos; solvabilidade; e a formação bruta de capital fixo
sobre o total de activos têm a influência mais significativa na probabilidade de
incumprimento de crédito. Os rácios contabilísticos que apresentam menor influência
marginal na probabilidade de incumprimento de crédito são a: rendibilidade dos activos;
cobertura financeira; prazo médio de pagamentos; prazo médio de recebimentos; e
rendibilidade dos capitais próprios. Adicionalmente, e ao contrário das observações no
contexto de empresas cotadas, a dimensão da empresa aparece positivamente relacionada
com o incumprimento de crédito, e apesar da idade da empresa surgir negativamente
relacionada, a sua contribuição marginal na influência da estimação de probabilidades de
incumprimento é reduzida. A análise da influência conjunta de variáveis contabilísticas e
não contabilísticas mostra que a dimensão das empresas altera a relação de algumas
variáveis com o evento de incumprimento de crédito. Os resultados também indicam
variações sectoriais e geográficas nos dados de incumprimento de crédito. Os resultados
sugerem que a informação relacionada com empresas cotadas não pode ser generalizada
nem aplicada igualmente pelos reguladores às empresas não cotadas.
Em suma, os resultados dos três artigos apresentam informação importante não
apenas para a gestão de risco de crédito de instituições financeiras, mas também para os
reguladores e autoridades de supervisão financeira.
EN
This dissertation consists of three papers about credit risk management and covers
different types of firms that can be seen in a bank portfolio. It is used a comprehensive
sample maintained by the Portuguese central bank with approximately 43,000 observations
on more than 16,000 firms for the period 1997-2003. Almost 2,500 of these observations
relate to firms that entered into default according to Basel II definition, representing 6% of
the total sample. For the empirical estimations, different methodologies and sub-samples
were used to guarantee the fit of the data and the robustness of the results.
The first paper (Chapter 1) studies the influence of the independent auditor's going
concern evaluation by examining default following the release of the auditor's report.
Professional auditing standards require the independent auditor to disclose the uncertainty
in the auditor's opinion when there is substantial doubt about an entity's ability to continue
as a going concern. The primary purpose of our study was to determine whether the
independent auditor's going concern evaluation had information content by examining
whether firms default following issuance of a GCO. We use a sub-sample on 12,199 audit
reports relating to approximately 2,000 firms that are liable by law to have their accounts
audited on an annual basis. Empirical estimation of a logit model controlling for accounting
cash flow related and non-accounting variables shows that the likelihood of default for
firms that received going concern opinion is 2.792 times that of firms that received a clean
opinion. Likelihood ratio tests for omitted variable also confirm the incremental predictive
ability of going concern opinion over and above accounting and non-accounting variables
for the estimation and hold-out samples. In the non-defaulting group the average default
rate is 6.05% and in the defaulting group it is 17.78%. The default rate for firms in the nondefaulting
group that received a going concern opinion is 9.92% and for firms that received
a clean opinion is 5.96%. In the defaulting group, the rate for firms that received a going
concern opinion is 35.49% and for firms that received a clean opinion is 16.96%. Checks
for robustness across different asset classes, age, industries and regions indicate that firms
that receive a going concern opinion on average default more than those that receive a
clean opinion.
The second paper (Chapter 2) uses the total sample and analyzes default events for
limited liability (non-listed) and full liability firms in order to understand the loan default
characteristics of these two groups of firms. We test six hypotheses that relate the influence
of accounting ratios and their distributional properties to default. Additionally, two
hypotheses are tested relating the influence of liability status of firms and default and the
incremental predictive ability of liability status over and above accounting ratios when
predicting default. The following ratios - cash flow to total debt, operational cash flows to
debt costs, equity to total assets and liquidity - are found to be negatively related to default.
Size of the firm and age are also negatively related to default. Limited liability is positively
related to default. The predicted default probability of full liability firms is 0.83 times that
of limited liability firms. The likelihood ratio test for omitted variable also confirms the
incremental predictive ability of liability status over and above accounting information for
the estimation and hold-out samples. In the non-defaulting group, the average default rate
for limited liability firms is 0.53% higher than that of full liability firms. This difference is
2.07% higher in the defaulting group. Cross tabulation by liability status and asset size
shows that the advantage of full liability decreases with size.
The third paper (Chapter 3) discloses a simple model based on accounting and nonaccounting
ratios to determine default of privately-held firms and a method of computing
default probabilities that can be used at the central bank in Portugal to calculate minimum
capital requirements for the banking sector and utilize them as benchmarks in the validation
of the internal models of the commercial banks. The Basel Committee on Banking
Supervision advocates that central and commercial banks model and estimate default
probabilities with specific country or bank portfolios. Little research exists on privately
held firms and default. We use novel loan data for a sample of 31,025 accounts of
privately-held firms maintained by the Portuguese central bank. Our data includes 30
accounting ratios and non-accounting information on size, age, industry and geographic
regions. In relation to accounting ratios, we find interest costs to gross income, solidity and
working capital to total assets to have the most significant influence on the probability of
default. The accounting ratios that show lower marginal influence on the probability of
default are return on investment, financial coverage, account payables and receivables, and
return on equity. Additionally, we find that unlike the observation in the context of listed
firms, size appears positively related to default and although age of firm appears negatively
related to default, its marginal influence on default probability is very low. The analysis of
the joint influence of non-accounting and accounting variables shows that size alters the
relation between several variables and default. Our findings also indicate industry and
geographic variations in the default data. The findings suggest that results relating to listed
firms cannot be generalized by policy makers and regulators to apply equally to privatelyheld
firms.
The findings of the three papers all together provide valuable information not only
to the credit risk management of financial institutions but also to policy makers and
supervisory authorities.