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As atividades humanas impulsionaram o planeta para uma nova época geológica: o Antropoceno. Neste contexto de incerteza e de destruição ambiental, torna-se urgente procurar formas alternativas à tipicamente ocidental de habitar um planeta repleto de vida. A lógica capitalista do crescimento infinito, aliada ao antropocentrismo, ao especismo e a limitações da ciência moderna, contribuem tanto para a degradação ecológica como para a violência contra seres não-humanos.
Analiso cosmologias indígenas, como o perspetivismo ameríndio e as conceções dos povos Cree e Ojibwa sobre a qualidade de pessoa e a relação com o ambiente, que oferecem pistas para modos de vida mais ecológicos e respeitosos. Examino também perspetivas ocidentais alternativas, como a Antropologia do ambiente segundo Ingold e Milton, o conceito de Umwelt de von Uexküll e o Pós-humanismo. Estas abordagens revelam formas de habitar que reconhecem a interdependência e a pluralidade das existências.
A componente etnográfica centra-se no santuário animal Save & Care, onde humanos e não-humanos convivem como pessoas singulares. No santuário, práticas de cuidado e reciprocidade constroem parentescos multiespécies e revelam alternativas concretas ao paradigma dominante de exploração. O santuário surge como espaço ético e afetivo, cristalizando possibilidades de regeneração e coabitação.
Concluo que enfrentar os desafios do Antropoceno exige mais do que soluções técnicas: requer repensar a nossa forma de estar-no-mundo. Reconhecer a vida como unidade básica de compaixão abre caminhos para futuros multiespécies baseados no cuidado, na corresponsabilidade e na justiça ecológica, tornando possível imaginar um planeta mais habitável para todos.