PT
Nas últimas décadas, e sobretudo após os atentados de 11 de setembro de 2001, o terrorismo
passou a ser considerado como a principal ameaça global. Contudo, e como indica a literatura,
a forma como o terrorismo é enquadrado tem, não raras vezes, contribuído para que certos
grupos socioculturais tenham sido sistematicamente associados a esta potencial ameaça,
promovendo dinâmicas de discriminação e exclusão em nome da segurança nacional.
Esta dissertação analisa o impacto da identidade sociocultural na perceção pública de atos
julgados ao abrigo da Lei do Terrorismo em Portugal, entre 2015 e 2024. Partindo de uma
abordagem construtivista ancorada na teoria da securitização e na viragem vernacular nos
estudos críticos de segurança, a dissertação procura compreender de que forma fatores como
nacionalidade, religião e estatuto migratório de indivíduos associados a ações terroristas
influenciam as narrativas quotidianas através das quais estes indivíduos e as suas ações são
enquadrados e discutidos pela opinião pública. Para isso, este estudo realiza uma análise
comparativa de dois casos: Abdesselam Tazi, cidadão marroquino acusado de recrutamento
para o Daesh, e João Carreira, estudante português acusado de planear um ataque à Faculdade
de Ciências da Universidade de Lisboa. A metodologia consiste uma análise temática de 600
comentários recolhidos no Facebook em resposta a notícias publicadas sobre os casos nos três
jornais com maior tiragem e visibilidade em Portugal: Expresso, Público e Correio da Manhã.
Os resultados revelam diferenças significativas na forma como ambos foram discutidos
pelo público: Abdesselam Tazi foi amplamente estigmatizado e associado a estereótipos ligados
ao Islão e à migração, sendo alvo de discursos de desumanização e apelos à violência. João
Carreira foi retratado com maior empatia, com uma responsabilização partilhada entre família,
colegas e sociedade, e apelos à compreensão do seu estado psicológico. Ainda que a amostra
analisada neste estudo seja reduzida, a dissertação conclui que a identidade sociocultural
influencia de forma decisiva a perceção pública, revelando e reforçando preconceitos e
contribuindo para a legitimação de processos de securitização. O estudo contribui teoricamente
para os estudos críticos de segurança ao confirmar a relevância da identidade na construção
social do terrorismo, preenche uma lacuna no contexto português e reforça a necessidade de
políticas públicas e práticas jornalísticas que combatam estereótipos e fomentem integração
social.
EN
In the last decades, and mostly after the 9/11 attacks, terrorism has been considered the main
global threat. However, and according to the literature, the ways in which terrorism is framed
has, not rarely, contributed to the systematic association of certain sociocultural groups to this
potential threat, promoting discrimination dynamics and exclusion in the name of national
security.
This dissertation analyzes the impact of sociocultural identity on public perception of acts
judged under Portugal’s Anti-Terrorism Law between 2015 and 2024. Drawing on a
constructivist approach anchored in securitization theory and in the vernacular turn within
critical security studies, this study searches for an understanding of how factors such as
nationality, religion and migration status of individuals associated with terrorist actions
influence the everyday narratives through which these individuals and their actions are framed
and discussed by public opinion. To this end, this study conducts a comparative analysis of two
cases: Abdesselam Tazi, a Morrocan citizen accused of recruiting for Daesh, and João Carreira,
a Portuguese student who planned an attack at the Faculty of Sciences of the University of
Lisbon. Methodologically, the research applies thematic analysis to 600 comments collected
from Facebook in response to news published about the cases by three of the newspapers with
the largest circulation and visibility in Portugal: Expresso, Público, and Correio da Manhã.
The findings reveal significative diferences in the way the cases were discussed by the
public: Abdesselam Tazi was heavily stigmatized and associated with stereotypes related to
Islam and migration, making him a subject of dehumanization discourses and calls for violence.
However, João Carreira was portrayed with much more empathy, with responsability often
attributed to family, peers and society, and with appeals to consider his psychologial condition.
Despite the limited sample analyzed in this study, this dissertation concludes that sociocultural
identity influences public perception in a critical way, reinforcing prejudices and legitimizing
securitization processes against specific groups. This dissertation contributes theoretically to
critical security studies by confirming the centrality of identity in the social construction of
terrorism, addresses a gap in the Portuguese context and stresses the need for public policies
and journalistic practices that counter stereotypes and promote social integration.